“Ter uma boa atitude e não baixar os braços é essencial nesta jornada”

Cláudia Fraga foi diagnosticada com cancro do ovário em 2015. Quatro anos depois, completados os tratamentos e já livre da doença, o cancro voltou a aparecer, desta vez no intestino. “Caiu-me tudo ao chão e pensei ‘estou tramada’”, recorda. Foi submetida a várias cirurgias e até a uma ostomia (abertura ou canal, geralmente realizado através de cirurgia, para ligar uma víscera e o exterior do corpo) durante seis meses – entretanto revertida. Hoje, continua a fazer terapêutica de manutenção e procura ajudar outras mulheres através da Associação MOG (Movimento Cancro do Ovário e Outros Cancros Ginecológicos), que criou em 2019.

Além de contribuir para o bem-estar dos doentes e promover a sensibilização em torno destas patologias com atividades, como workshops, a associação ajuda a resolver problemas ao nível do encaminhamento de consultas ou do acesso aos tratamentos. “Testemunho todos os dias como é importante contar com o apoio e o acompanhamento de pares – de mulheres que enfrentam situações similares à nossa, que têm as mesmas dores, passam pelos mesmos momentos de incerteza e desalento, mas que também sabem encontrar forças para encarar cada etapa da doença e da recuperação. ‘Ânimo alto’ é uma expressão que uso quotidianamente, porque ter uma boa atitude e não baixar os braços é essencial nesta jornada”, afirma Cláudia Fraga.

3 perguntas a Cláudia Fraga

O que pensou assim que recebeu o diagnóstico de cancro do ovário?

Da primeira vez que fui diagnosticada com a presença de um tumor nos ovários, em 2015 – detetada pelos exames de diagnóstico realizados na Fundação Champalimaud – os meus pensamentos foram proativos. Senti que estava no sítio certo, para o caso de ser grave, e pensei: “Agora, o que é que preciso de fazer?”. Em 2019, quando o cancro regressou, a situação foi bastante diferente. Receber o diagnóstico da recidiva, quatro anos depois, foi muito mais complicado. Primeiro, pensei tratar-se de um erro de diagnóstico, uma vez que fizera histerectomia em 2015 e não imaginava sequer que poderia ter uma recidiva de cancro relacionada com órgãos que já não existiam no meu corpo. O índice tumoral CA125 estava excelente, a ressonância magnética e a TAC não indicavam alterações, e só após uma colonoscopia se descobriu que o tumor afetara o íleo e cólon. Até fundar a associação MOG, sabia muito pouco sobre a doença, nunca pesquisei sobre o assunto, por isso a recidiva foi impactante. Dessa vez, caiu-me tudo ao chão e pensei “estou tramada”. O processo que se seguiu foi complexo, envolveu diversas operações, situações de risco de vida e fiquei ostomizada durante seis meses. Felizmente, consegui reverter a ostomia e ultrapassar esta situação. Hoje, continuo a fazer uma terapêutica de manutenção.

Quais são os principais desafios que enfrentam as pessoas com cancro ginecológico?

Os desafios são diferentes tendo em conta o tipo de cancro ginecológico a que nos referimos, contudo, obter o diagnóstico e ter acesso ao tratamento adequado o mais cedo possível são aspetos que fazem toda a diferença na jornada da doença. Devido aos sintomas inespecíficos (fadiga intensa, inchaço, flatulência, alterações urinárias e intestinais) e à progressão rápida dos tumores, os casos de cancro do ovário tendem a ser diagnosticados em fases avançadas da doença, o que constitui um problema para a eficácia dos tratamentos e a qualidade de vida das mulheres. No nosso país, assistimos ainda a muitas assimetrias regionais nos cuidados de saúde, seja na obtenção de uma consulta com o médico de família, seja nos rastreios oncológicos ou em aceder a equipas médicas especializadas em ginecologia oncológica.

Não podemos esquecer também o impacto da doença na qualidade de vida (resultante de tratamentos e cirurgias) e na sexualidade, fertilidade e, muito especialmente, saúde mental, que continuam pouco integradas nos cuidados oncológicos. É também fundamental haver um maior acompanhamento em campos como a nutrição e o exercício físico, que têm um papel fundamental na recuperação.

Do que é que falta falar mais quando se fala de cancro ginecológico?

Falta chegar mais às pessoas em geral, falar mais sobre prevenção, aumentar a literacia em saúde e melhorar a organização dos cuidados. Temos de perceber que é preciso investir seriamente em informação dirigida às mulheres, que as ajude a reconhecer sinais e sintomas, a valorizar alterações no seu corpo e a procurar atempadamente cuidados de saúde. Por outro lado, falta reforçar o conhecimento e a formação dos médicos de medicina geral e familiar, que são a primeira porta de entrada no sistema – uma maior capacitação nesta área é essencial para evitar desvalorizações de sintomas e atrasos na referenciação e deve começar logo na universidade. Outro ponto importante é a educação em saúde nas escolas. A informação sobre saúde ginecológica e cancro deve fazer parte da educação sexual no ensino secundário, incluindo conteúdos claros sobre HPV, vacinação e prevenção.

Falta igualmente falar de especialização. É preciso criar e consolidar centros de referência para os cancros ginecológicos, que garantam equipas multidisciplinares especializadas, maior equidade no acesso aos cuidados e melhores resultados em saúde. A ginecologia oncológica devia ser considerada uma especialidade por si só, em vez de ser uma subespecialidade da ginecologia e obstetrícia.

Este projeto é apoiado por patrocinadores, sendo todo o conteúdo criado, editado e produzido pelo Expresso (ver Código de Conduta), sem interferência externa.

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