Tony Marlon

Quando a pessoa acusada diz que está longe de casa, da família, por um “erro” que cometeu “levada pela emoção” semanas atrás, ela dá um recado a sociedade: pode acontecer com você também de algum dia ser “mal interpretada” como estou sendo e ter que ficar longe da sua filha, do seu namorado, como estou ficando. Consegue imaginar a minha dor, é o subtexto.

Ao fazer isso, essa pessoa busca criar identificação e apoio de pessoas que se parecem com ela social, cultural ou até fisicamente. Conseguir isso já é meio caminho andado para a impunidade. Neste país e em muitos outros.

No inconsciente coletivo brasileiro, a suposta paz e cordialidade que existe no país é quebrada por quem grita o nome do racista e não por quem cometeu a violência racista. O conflito que busca a responsabilização é visto como problema e não a violência que o gerou. É por isso que, perceba, algumas vítimas são despedidas pouco depois da exposição pública do caso, o que inclusive aconteceu recentemente.

É como se existisse a voz de um narrador: beleza, nós te apoiamos até aqui, mas precisamos da “nossa paz” de volta e você chamou a atenção demais, perturbou a ordem. Vamos começar tudo de novo, sem a sua presença. Obrigado pelos serviços prestados.

O movimento de defesa de alguém pego cometendo uma violência racista é tão previsível e roteirizado que é de se espantar como essa “narrativa” que os acusados tanto usam é comprada tão facilmente pela sociedade, mesmo nos dias de hoje. Das duas, uma: ou os profissionais contratados por elas são geniais em suas estratégias ou a sociedade escolhe conscientemente acreditar nas piores mentiras para não precisar se olhar no espelho.

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